Soluções Baseadas na Natureza (SBN): ciência e regeneração

Como a natureza se torna aliada estratégica na crise climática global

Soluções Baseadas na Natureza (SBN) representam hoje uma das abordagens mais robustas, promissoras e cientificamente fundamentadas para responder aos grandes desafios do século XXI: as mudanças climáticas, a perda acelerada de biodiversidade, a insegurança hídrica e a degradação progressiva dos solos.

Diferentemente das soluções puramente tecnológicas, as SBN partem de um princípio ao mesmo tempo simples e profundo: a natureza, quando protegida, gerida de forma sustentável ou restaurada com rigor científico, é capaz de oferecer respostas eficientes, duradouras e de elevado custo-benefício para desafios que nenhuma engenharia convencional consegue resolver sozinha.

Trata-se, portanto, de uma reconexão estratégica da humanidade com os sistemas que a sustentam há milênios e, ao mesmo tempo, de um caminho promissor para superar a falsa dicotomia entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Não por acaso, as SBN estão no centro das maiores agendas internacionais de clima e biodiversidade em vigência, do Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal à Lei de Restauração da Natureza da União Europeia, aprovada em 2024.

O que são as Soluções Baseadas na Natureza: conceito e origem

As SBN não configuram uma ciência isolada ou uma disciplina autônoma, mas sim um campo interdisciplinar que articula saberes da ecologia, da hidrologia, da agronomia, da climatologia, da economia ambiental e das ciências sociais. O conceito foi gestado progressivamente a partir dos anos 1990, impulsionado pelo avanço das pesquisas sobre serviços ecossistêmicos e capital natural.

O ponto de inflexão veio com o trabalho seminal de Robert Costanza et al. (1997), publicado na revista Nature, que estimou pela primeira vez o valor econômico dos serviços prestados pelos ecossistemas do planeta em escala global, conferindo uma linguagem econômica acessível a tomadores de decisão que, até então, tratavam a natureza como um ativo gratuito e inesgotável.

Além disso, a Avaliação Ecossistêmica do Milênio (Millennium Ecosystem Assessment, 2005), patrocinada pela ONU e coordenada por mais de 1.300 pesquisadores de 95 países, demonstrou de forma inequívoca que a degradação dos ecossistemas compromete diretamente o bem-estar humano, fornecendo a base empírica para o que viria a ser formalizado como SBN.

A expressão “Nature-based Solutions” foi utilizada de forma pioneira pelo Banco Mundial em 2008 e, em seguida, formalmente incorporada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e pela Comissão Europeia a partir de 2012. Foi, no entanto, a IUCN que mais contribuiu para a consolidação global do conceito, especialmente com a publicação, em 2016, do documento organizado por Emilie Cohen-Shacham e colaboradores, que sistematizou a definição, o escopo e os princípios orientadores das SBN de maneira universalmente reconhecida (COHEN-SHACHAM et al., 2016). De acordo com essa definição, as SBN são ações de proteção, gestão sustentável e restauração de ecossistemas naturais ou modificados que abordam desafios sociais de forma eficaz e adaptativa, garantindo, simultaneamente, o bem-estar humano e os benefícios à biodiversidade.

Hoje, essa base conceitual encontra respaldo em um dos mais robustos documentos científicos já produzidos sobre o clima: o Sexto Relatório de Avaliação do IPCC (AR6), publicado em 2022, reconhece que as Soluções Baseadas na Natureza podem contribuir com até 30% da mitigação necessária para manter o aquecimento global abaixo de 2°C até 2030, ao mesmo tempo em que geram cobeneficios substantivos para a biodiversidade, a segurança hídrica e a resiliência das comunidades humanas mais vulneráveis (IPCC, 2022). Portanto, as SBN deixaram de ser uma promessa periférica e se tornaram um pilar incontornável da ciência do clima contemporânea.

Os oito princípios do Padrão Global para SBN

Em 2020, a IUCN publicou o Padrão Global para Soluções Baseadas na Natureza (IUCN Global Standard for Nature-based Solutions), um marco normativo que estabeleceu oito critérios fundamentais para que uma iniciativa possa ser legitimamente reconhecida como SBN.

Em primeiro lugar, as ações devem abraçar as normas e os objetivos de conservação da natureza. Em segundo lugar, devem ser desenhadas para abordar desafios sociais de forma eficaz e verificável. Em terceiro lugar, precisam resultar em ganhos líquidos mensuráveis de biodiversidade e de integridade ecossistêmica. Além disso, as SBN devem demonstrar viabilidade econômica, ser governadas de forma inclusiva e transparente, incorporar o conhecimento tradicional e local e ser geridas de maneira adaptativa, com base em evidências científicas contínuas. Por fim, as SBN devem ser sustentáveis em longo prazo, garantindo que seus benefícios perdurem muito além da intervenção inicial (IUCN, 2020).

Esses princípios cumprem, ao mesmo tempo, uma função normativa e uma função ética: eles operam como salvaguarda contra o chamado “greenwashing ecológico”, ou seja, a apropriação superficial e oportunista do conceito por atores que buscam apenas a aparência de responsabilidade ambiental sem promover transformações reais e verificáveis. A consolidação desses princípios no Padrão Global influenciou diretamente o desenho de marcos recentes, como o Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (2022) e a Lei de Restauração da Natureza da União Europeia (2024), que incorporaram critérios de mensuração e verificação inspirados nessa abordagem (CONVENTION ON BIOLOGICAL DIVERSITY, 2022; COMISSÃO EUROPEIA, 2024).

7 exemplos de Soluções Baseadas na Natureza (SBN)

As SBN não existem apenas no plano das políticas globais ou nos relatórios de organismos internacionais. Ao contrário, elas se manifestam em práticas concretas, implementadas em diferentes escalas e contextos, com resultados mensuráveis e crescentemente documentados. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estima, em seu relatório State of Finance for Nature de 2024, que o investimento global em SBN precisa alcançar ao menos 542 bilhões de dólares anuais até 2030 para que as metas climáticas e de biodiversidade sejam cumpridas (UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME, 2024). A seguir, sete exemplos que ilustram a diversidade e a potência das SBN aplicadas à sustentabilidade, à preservação e à regeneração ambiental.

1. Restauração de matas ciliares

A recuperação das florestas às margens de rios, lagos e nascentes é uma das SBN mais estudadas, documentadas e aplicadas no mundo. Por meio dessa prática, é possível reduzir o assoreamento dos cursos d’água, melhorar a qualidade da água captada, conter processos erosivos nas margens, proteger comunidades contra cheias e inundações e aumentar a recarga natural dos aquíferos. Além disso, a restauração das matas ciliares favorece a conectividade entre fragmentos florestais e o incremento da biodiversidade regional, constituindo-se, dessa forma, em uma das intervenções de maior custo-efetividade no portfólio das SBN.

2. Sistemas agroflorestais

A integração de árvores nativas, culturas agrícolas e, em muitos casos, criação animal em um mesmo espaço produtivo representa uma SBN de alto impacto e eficácia comprovada. Além de contribuir para o aumento da biodiversidade em paisagens agrícolas, os sistemas agroflorestais sequestram carbono, melhoram a fertilidade e a estrutura do solo, reduzem a dependência de insumos sintéticos e diversificam a renda das famílias e comunidades rurais. Por conseguinte, representam uma das mais promissoras interfaces entre produção de alimentos e restauração ecológica.

3. Restauração e conservação de manguezais

Os manguezais são ecossistemas costeiros de extraordinária importância ecológica e climática. Eles possuem uma das maiores taxas de sequestro de carbono por hectare do planeta, além de oferecerem proteção natural das costas contra erosão e tempestades tropicais, servirem de berçário para inúmeras espécies marinhas e sustentarem comunidades pesqueiras costeiras. Nesse sentido, a restauração e a conservação dos manguezais constituem uma SBN que responde, ao mesmo tempo, à crise climática, à perda de biodiversidade e à insegurança alimentar.

4. Agricultura regenerativa

Em contraposição à agricultura convencional, a agricultura regenerativa busca restaurar a saúde e a vitalidade do solo por meio de práticas como o manejo orgânico, a minimização do revolvimento do solo, a integração de plantas de cobertura e a diversificação de culturas. Dessa forma, ela contribui para a captura de carbono atmosférico no solo, para a retenção hídrica, para o aumento da resiliência produtiva frente a eventos climáticos extremos e para a restauração de ciclos ecológicos essenciais em paisagens agrícolas degradadas.

5. Corredores ecológicos

A criação e a manutenção de corredores que conectam fragmentos de vegetação nativa em diferentes escalas da paisagem permitem o fluxo gênico entre populações de animais e plantas, reduzindo a vulnerabilidade à extinção local. Além disso, esses corredores aumentam a resiliência dos ecossistemas frente às mudanças climáticas, pois permitem que as espécies migrem em resposta às alterações nas condições de temperatura e umidade. Portanto, representam uma SBN de enorme relevância estratégica para a conservação da biodiversidade em longo prazo.

6. Restauração de bacias hidrográficas degradadas

Projetos integrados de restauração de bacias hidrográficas, que envolvem o reflorestamento de nascentes e encostas, a eliminação de pastagens degradadas em áreas de proteção permanente e o manejo adequado do solo, resultam em maior regularidade e disponibilidade hídrica, melhora expressiva na qualidade da água e redução dos riscos de secas e inundações. Em decorrência dessas ações, é possível recuperar os serviços ecossistêmicos prestados pelos rios e aquíferos regionais, com benefícios diretos para a segurança hídrica de populações urbanas e rurais.

7. Gestão de áreas marinhas protegidas

A criação e a gestão efetiva de áreas marinhas protegidas (AMPs) constituem uma SBN de grande relevância para os oceanos e para as comunidades humanas que deles dependem. Nessas áreas, a recuperação dos estoques pesqueiros, a restauração de recifes de coral e de outras estruturas biogênicas e a proteção de habitats críticos geram benefícios que se irradiam para além dos seus limites, contribuindo, assim, para a segurança alimentar, para a mitigação das emissões de carbono e para a resiliência climática das zonas costeiras.

Cases de sucesso: a natureza como protagonista da transformação

A escala e a diversidade dos resultados documentados ao redor do mundo são, por si sós, uma demonstração contundente da efetividade das Soluções Baseadas na Natureza. A seguir, três cases internacionais e três cases nacionais que ilustram o potencial transformador das SBN aplicadas à sustentabilidade, à preservação e à regeneração ambiental, com informações atualizadas até 2024-2025.

SBN: casos internacionais

Room for the River: a Holanda que aprendeu a ceder espaço à água

A Holanda, país historicamente marcado pela luta secular contra as inundações, implementou entre 2007 e 2019 o programa Room for the River (Ruimte voor de Rivier), uma das mais ambiciosas SBN de gestão hídrica já concebidas no mundo. Em vez de investir na ampliação de diques e barreiras, o programa optou por restaurar planícies de inundação, relocar diques para posições mais recuadas e recriar braços de rios suprimidos ao longo de décadas de intervenção hidráulica, reduzindo significativamente o risco de enchentes em regiões habitadas por mais de quatro milhões de pessoas. Segundo os relatórios atualizados do Delta Programme holandês, publicados em 2023, as áreas revitalizadas pelo programa continuam gerando co beneficios expressivos em termos de biodiversidade, turismo ecológico e qualidade de vida ribeirinha, comprovando a durabilidade dos resultados mesmo anos após a conclusão das obras (DELTA PROGRAMME, 2023). Além disso, o modelo holandês foi incorporado como referência central na formulação da Lei de Restauração da Natureza da União Europeia, aprovada em 2024, que obriga os Estados-membros a restaurar pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas até 2030. Dessa forma, o Room for the River deixou de ser um caso isolado e se tornou a arquitetura conceitual de uma das legislações ambientais mais ambiciosas da história recente da Europa (COMISSÃO EUROPEIA, 2024).

A Grande Muralha Verde: regenerando o Sahel, uma árvore de cada vez

A Grande Muralha Verde (Great Green Wall) é uma iniciativa pan-africana lançada pela União Africana em 2007 com o objetivo de deter o avanço da desertificação na região do Sahel, por meio da restauração de uma faixa de vegetação de aproximadamente 8.000 quilômetros de extensão, cruzando 11 países do continente africano. A abordagem combina técnicas ancestrais de manejo da terra, como o Farmer Managed Natural Regeneration (FMNR), com estratégias modernas de restauração ecológica e políticas de desenvolvimento rural integrado. De acordo com o relatório de progresso publicado pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) em 2024, já foram restaurados ou encontram-se em processo de restauração ativa aproximadamente 18 milhões de hectares de terras degradadas na região, com benefícios documentados para a segurança alimentar, a disponibilidade hídrica e a renda das comunidades rurais em países como Níger, Senegal e Etiópia (UNCCD, 2024). Ademais, a iniciativa recebeu renovado impulso nas COPs climáticas de 2022 e 2023, com novos compromissos de financiamento de governos europeus e de fundos multilaterais de adaptação. Portanto, a Grande Muralha Verde é hoje considerada pela comunidade internacional uma das mais importantes iniciativas de SBN em andamento no mundo.

Restauração do Planalto de Loess: reverter séculos de degradação na China

O Planalto de Loess, no noroeste da China, foi durante séculos uma das regiões mais erodidas e ambientalmente degradadas do planeta, resultado de milênios de uso intensivo do solo e desmatamento progressivo. Entre 1994 e 2014, o governo chinês, com apoio técnico e financeiro do Banco Mundial, implementou um ambicioso programa de restauração ecológica que incluiu o reflorestamento de encostas, o controle da erosão por meio de terraços agrícolas e a reintrodução de espécies vegetais nativas. Os resultados foram documentados de forma rigorosa por Feng et al. (2016), em estudo publicado na Nature Climate Change, que apontou a recuperação de mais de 35.000 km² de vegetação, a redução drástica da erosão do solo e o aumento consistente da produtividade agrícola nas áreas restauradas. Dados de monitoramento por satélite atualizados até 2024, obtidos por meio de plataformas como o Global Forest Watch e o sistema Copernicus da ESA, confirmam que a cobertura vegetal recuperada segue estável e com expansão progressiva, demonstrando que a restauração foi duradoura e não apenas temporária. Além disso, a renda per capita das comunidades locais cresceu de forma significativa ao longo do período, evidenciando que as SBN podem ser, ao mesmo tempo, ambientalmente eficazes e socialmente transformadoras (FENG et al., 2016).

SBN: casos nacionais

Programa Produtor de Água: remunerando a restauração para garantir a água

O Programa Produtor de Água, coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), é um dos mais relevantes e replicáveis cases brasileiros de SBN aplicada à segurança hídrica. Lançado em 2001 na bacia hidrográfica do Rio Pipiripau, no Distrito Federal e em Goiás, o programa remunera produtores rurais que adotam práticas voluntárias de conservação do solo e da água, como a restauração de matas ciliares, a implantação de sistemas agroflorestais e a proteção de nascentes. De acordo com o relatório de resultados da ANA de 2024, o programa já está presente em mais de 200 bacias hidrográficas em todo o território nacional, tendo beneficiado dezenas de municípios com maior regularidade hídrica, redução do assoreamento e melhora sensível na qualidade da água bruta, com investimentos que somam centenas de milhões de reais em pagamentos por serviços ambientais (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO, 2024). Assim, o Programa Produtor de Água demonstra, na prática, que é possível alinhar incentivos econômicos à restauração ecológica em escala, constituindo-se em uma referência internacional tanto para o desenho de políticas públicas quanto para o desenvolvimento de mercados de carbono e de serviços ambientais no Brasil.

Pacto pela Restauração da Mata Atlântica: o maior compromisso voluntário de restauração do mundo

O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, fundado em 2009, reúne atualmente mais de 340 organizações, entre governos estaduais e municipais, empresas, institutos de pesquisa e organizações da sociedade civil, em torno de um objetivo compartilhado: restaurar 15 milhões de hectares de Mata Atlântica até 2050. Trata-se de um dos maiores compromissos voluntários de restauração florestal já registrados no mundo, especialmente expressivo por incidir sobre um bioma que perdeu mais de 85% de sua cobertura vegetal original. Segundo o relatório de progresso de 2024, a iniciativa já acompanha ativamente a restauração de mais de 1,5 milhão de hectares em diferentes estágios, com resultados documentados em aumento de conectividade entre fragmentos, recuperação de espécies ameaçadas e geração de renda para comunidades rurais (PACTO PELA RESTAURAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA, 2024). Ademais, o Pacto é reconhecido internacionalmente no âmbito do Desafio de Bonn e contribui diretamente para o cumprimento das metas do Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal de 2022, posicionando o Brasil como protagonista global na agenda de restauração ecológica.

Projeto ARPA e o Fundo Amazônia: protegendo a Amazônia em escala sem precedentes

O Programa Áreas Protegidas da Amazônia (ARPA), lançado em 2002, é considerado a maior iniciativa de criação e consolidação de áreas protegidas em floresta tropical do mundo, com mais de 60 milhões de hectares de unidades de conservação consolidadas ao longo de suas três fases de implantação. Em 2023, o programa ganhou novo impulso com a reativação do Fundo Amazônia pelo governo federal brasileiro, após quatro anos de paralisia. Com novos aportes da Noruega, da Alemanha e dos Estados Unidos, o Fundo Amazônia retomou suas operações com um aporte comprometido superior a 3,2 bilhões de dólares, dos quais uma parcela significativa é destinada ao fortalecimento das unidades de conservação apoiadas pelo ARPA (BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL, 2023). Além da proteção direta da floresta, o programa investe na gestão participativa das unidades de conservação e no fortalecimento das comunidades indígenas e tradicionais que habitam esses territórios, reconhecendo-as como parceiras indispensáveis na guarda dos ecossistemas amazônicos. Dessa forma, o conjunto ARPA e Fundo Amazônia posiciona o Brasil como o país com a maior reserva de SBN de proteção do mundo, com impactos que transcendem as fronteiras nacionais e regulam o clima de toda a América do Sul.

A natureza não é um recurso, é uma parceira

As Soluções Baseadas na Natureza não representam uma moda passageira nem um artifício retórico do ambientalismo contemporâneo. Pelo contrário, elas constituem uma resposta cientificamente fundamentada, politicamente legitimada e economicamente necessária para alguns dos maiores desafios que a humanidade enfrenta neste século. Da Holanda ao Sahel, do Planalto de Loess à Mata Atlântica, da Amazônia à agenda global de biodiversidade inscrita no Quadro de Kunming-Montreal, as evidências acumuladas são inequívocas: quando a natureza é protegida, gerida com inteligência e restaurada com rigor, ela entrega resultados que nenhuma tecnologia convencional consegue reproduzir com a mesma escala, ao mesmo custo-benefício e com a mesma profundidade de impacto positivo sobre os sistemas que sustentam a vida no planeta.

Para pesquisadores, gestores públicos, líderes empresariais e formuladores de políticas, o horizonte de 2030 é simultaneamente uma oportunidade e uma exigência. As metas 30×30 do Quadro Global de Biodiversidade, as metas climáticas do Acordo de Paris, o Global Stocktake de Dubai em 2023 e a Lei de Restauração da Natureza da União Europeia convergem para um mesmo imperativo: escalar, financiar, integrar e monitorar as SBN com a velocidade e a ambição que a crise climática e a crise da biodiversidade exigem. Nesse sentido, a natureza não nos pede permissão para funcionar. Ela simplesmente precisa de espaço, tempo e cuidado. E é exatamente isso que as Soluções Baseadas na Natureza propõem: devolver à Terra a oportunidade de restaurar o que a ação humana degradou, transformando o ato de regenerar ecossistemas no investimento mais inteligente, mais duradouro e mais estratégico que uma civilização pode fazer. Porque, em última análise, nenhuma tecnologia supera a que a evolução levou bilhões de anos para construir na própria estrutura da vida.

Referências

COHEN-SHACHAM, E.; WALTERS, G.; JANZEN, C.; MAGINNIS, S. (Eds.). Nature-based solutions to address global societal challenges. Gland: IUCN, 2016. Disponível em: https://portals.iucn.org/library/node/46191. Acesso em: 7 jun. 2026.

COSTANZA, R. et al. The value of the world’s ecosystem services and natural capital. Nature, v. 387, p. 253-260, maio 1997. Disponível em: https://www.nature.com/articles/387253a0. Acesso em: 7 jun. 2026.

IUCN. IUCN Global Standard for Nature-based Solutions: a user-friendly framework for the verification, design and scaling up of NbS. 1. ed. Gland: IUCN, 2020. Disponível em: https://portals.iucn.org/library/node/49070. Acesso em: 7 jun. 2026.

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FENG, X. et al. Revegetation in China’s Loess Plateau is approaching sustainable water resource limits. Nature Climate Change, v. 6, p. 1019-1022, 2016. Disponível em: https://www.nature.com/articles/nclimate3092. Acesso em: 7 jun. 2026.

COMISSÃO EUROPEIA. Regulamento (UE) 2024/1991 do Parlamento Europeu e do Conselho relativo à restauração da natureza. Jornal Oficial da União Europeia, Luxemburgo, jun. 2024. Disponível em: https://environment.ec.europa.eu/topics/nature-and-biodiversity/nature-restoration-law_en. Acesso em: 7 jun. 2026.

CONVENTION ON BIOLOGICAL DIVERSITY. Kunming-Montreal Global Biodiversity Framework. Montreal: CBD Secretariat, 2022. (Decision 15/4). Disponível em: https://www.cbd.int/gbf. Acesso em: 7 jun. 2026.

DELTA PROGRAMME. Delta Programme 2023: working on the delta. Haia: Delta Programme Commissioner, 2023. Disponível em: https://www.government.nl/topics/delta-programme. Acesso em: 7 jun. 2026.

INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE. Climate change 2022: impacts, adaptation and vulnerability. Contribution of Working Group II to the Sixth Assessment Report. Cambridge: Cambridge University Press, 2022. Disponível em: https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg2/. Acesso em: 7 jun. 2026.

PACTO PELA RESTAURAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA. Relatório de progresso 2024. São Paulo: Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, 2024. Disponível em: https://www.pactomataatlantica.org.br. Acesso em: 7 jun. 2026.

UNITED NATIONS CONVENTION TO COMBAT DESERTIFICATION. The Great Green Wall: state of progress and way ahead to 2030. Bonn: UNCCD, 2024. Disponível em: https://www.unccd.int/our-work/ggwi. Acesso em: 7 jun. 2026.

UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. State of finance for nature 2024: making the economic case for nature. Nairobi: UNEP, 2024. Disponível em: https://www.unep.org/resources/state-finance-nature. Acesso em: 7 jun. 2026.

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