Amazônia /
Por Edna Nyenhuis, presidente do Instituto Hera da Amazônia (IHAM)
Há desfiles que se assistem, e há desfiles que se sentem na pele. Foi a sensação de estar diante de uma memória viva que tomou conta de mim ao acompanhar a apresentação do designer amazonense Sioduhi na quarta edição do Amazon Poranga Fashion, em Manaus.
Sioduhi trouxe à passarela sua coleção Ahkó-Yakó, o legado da gente estrela (pronunciada Arcó-Iacó). Mas o que mais me tocou não foi apenas a beleza das peças, e sim a profundidade da história que elas carregam.
Sioduhi é do povo Waikahna, também conhecido como Piratapuya ou Gente Peixe, e sua coleção nasce das cosmovisões indígenas do Alto Rio Negro, um território que reúne 24 povos e mais de 18 idiomas nativos, na fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela. Ali, os movimentos das constelações não são apenas contemplação do céu: eles regem os ritmos das águas, orientam os ciclos de cheias e vazantes dos rios e funcionam como um verdadeiro calendário cosmológico, usado pelos povos originários para manejar o território e buscar novas soluções diante das mudanças climáticas.
Essas constelações ganham forma de animais e objetos, e recebem nomes como Jararaca, Tatu, Jacundá, Camarão, Onça, um conjunto de estrelas, Jirau de peixe, Cabo de Enxó, Lontra e Garça. Juntas, são conhecidas como Ñohkoa Diarã Mahsã, a Gente Estrela Real, e fazem parte das narrativas sobre a concepção do mundo, revelando histórias singulares presentes na cosmovisão em que Sioduhi cresceu. Segundo essa perspectiva, ao serem exiladas no cosmos e afastadas de suas casas na terra, essas gentes lamentaram e choraram, e desse choro nasceram as chuvas. É dessa história que vem o nome da coleção: Ahkó e Yakó, que representam Água e Lágrima, respectivamente, na língua Tukano.
Para o designer, trazer a memória da gente estrela para a passarela é um meio simbólico de fazer com que ela volte a pisar na terra, em sua antiga casa. Em meio à urgência das discussões sobre os impactos das mudanças climáticas, ele acredita que o legado da floresta e das pessoas que nela vivem pode colaborar para sensibilizar a população brasileira, sobretudo no que diz respeito às práticas de manejo e readaptação desses territórios milenares. É uma visão com a qual me identifico profundamente, e que dialoga diretamente com o que defendemos no Instituto Hera da Amazônia sobre bioeconomia e regeneração dos territórios.

No campo da criação, a coleção impressiona pelo futurismo que já é marca registrada da Sioduhi Studio, combinado a técnicas ancestrais de Alta Artesania. Chamou minha atenção a forma como ele une inovação e tradição: o uso da tecnologia ManioColor, do Tecido Emborrachado da Amazônia (TEA) e, nesta coleção, a expansão de suas pesquisas para materiais biodegradáveis produzidos por impressão 3D. Dessa pesquisa nasceram peças tridimensionais inspiradas nas formas triangulares do quartzo, presente na joalheria tradicional de seu povo, batizadas de Momoarã (borboletas), além de referências ao peixe aracu.
A matéria-prima também conta uma história de raízes: fibra de tucum trabalhada em ponto puçá, plumagens de palha, tingimento natural com folha de crajiru, bordados eletrônicos que ilustram os seres das constelações e tecidos texturizados à mão para reproduzir os banzeiros, o movimento ondulante das águas amazônicas.
Ahkó-Yakó reafirma algo em que acredito profundamente: é possível criar moda brasileira a partir de uma visão indígena futurista amazônica, ocupando esse espaço como caminho de direito à memória e, ao mesmo tempo, gerando impacto socioeconômico real para as pessoas.
Sioduhi é um designer indígena, do Amazonas, que vem ganhando projeção nacional e internacional. Em 2025, foi eleito como um dos líderes em sustentabilidade pela Vogue Business, passou a desfilar na Casa de Criadores em 2024 como a única marca residente baseada no norte do Brasil, e em 2023, foi reconhecido como personalidade do ano para o futuro da moda, pelo Prêmio Fashion Futures do Instituto C&A.
Sigo acreditando que iniciativas como o Amazon Poranga Fashion são essenciais para que vozes como a de Sioduhi sigam unindo criatividade, cultura, saberes ancestrais e regeneração como resposta viva aos chamados do planeta.
Agradecimentos: Sioduhi
Com informações de @sioduhistudio
Saiba mais: sioduhi.com
Fotos Sioduhi: Pedro Furtado
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Informações para a imprensa:
cinthia@soulesgs.com
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