Por Nathan Hofmann
Mestrando em Ciência Política, com foco em política climática internacional. Bacharel em Ciências Sociais e Relações Internacionais. Pesquisador da Cátedra Jean Monnet FECAP São Paulo.
Após 25 anos de negociações intermitentes, o Acordo UE-MERCOSUL, um dos maiores acordos de livre comércio do mundo, entre a União Europeia com o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, parece finalmente pronto para a ratificação. No entanto, o consenso europeu esconde uma intensa crise interna, principalmente na França, que tem se posicionado como a líder da oposição.
A capital francesa tornou-se palco de protestos massivos de agricultores e sindicatos, antes mesmo da aplicação provisória, em 1º de maio de 2026, de sua parte comercial, o Acordo Comercial Interino (iTA). Estes grupos sociais enxergam no acordo uma ameaça existencial, pois o aumento do fluxo de commodities agrícolas sul-americanas, mais baratas e competitivas devido a produções sob estruturas regulatórias e custos diferentes dos vigentes na União Europeia, poderia inundar o mercado europeu. O setor agropecuário francês, mesmo respondendo por cerca de 3% de participação direta no PIB, exerce uma pressão política desproporcional, que o presidente Emmanuel Macron não consegue ignorar.
Macron, pressionado pelos sindicatos e ambientalistas, advoga veementemente por salvaguardas rigorosas, principalmente devido a argumentação proposta pelos líderes destes grupos europeus, alertando sobre uma competição desleal gerada por agrotóxicos proibidos na Europa; a ameaça à soberania alimentar da França; e o risco de que os padrões ambientais europeus sejam minados. Esta não é apenas uma disputa econômica, é uma defesa da identidade e dos padrões de saúde pública europeus contra um modelo de produção que consideram predatório.
Acordo UE-MERCOSUL: entre oportunidades comerciais e assimetrias históricas
Para a realidade brasileira, a aprovação traz diversos benefícios para o setor agropecuário do Brasil. O país exporta entre US$49 bilhões por ano para a Europa, e importou US$50,3 bilhões do bloco. Isso coloca a União Europeia como o segundo principal parceiro comercial do Brasil, atrás da China, quando considerada a corrente total de comércio. A relevância comercial é testemunhada até mesmo pelos estados da União, como o Ceará e o Espírito Santo, que exportou US$72 milhões no primeiro semestre; e US$31 milhões em junho, respectivamente com a Espanha e com a Bélgica em 2026.
Paradoxalmente, o acordo também carrega uma ameaça significativa para o Mercosul, que o vê como um acesso lucrativo e estratégico ao mercado europeu, visando diminuir a dependência de potências como a China e os Estados Unidos. No entanto, essa parceria corre o risco de simplesmente trocar uma dependência por outra.
O Acordo, ao intensificar as relações comerciais, pode reforçar incentivos já existentes para que o Mercosul se concentre na exportação de produtos primários e de menor valor agregado, como commodities. Tal cenário reforça o setor primário-exportador, negligenciando o desenvolvimento da indústria local e o fortalecimento do mercado interno.
É aqui que se manifesta uma das principais críticas ao acordo em solo brasileiro, a possibilidade de consolidação da América do Sul como uma periferia exportadora de bens primários. Essa intensificação dessa relação comercial define a Europa como uma importadora de commodities e exportadora de produtos industrializados e tecnologia de alto valor, estabelecendo uma relação de troca desigual, que perpetua a estrutura histórica de exploração, que evoca antigas estruturas centro-periferia que marcaram a formação econômica latino-americana.
O acordo também reaviva a memória das assimetrias históricas entre os dois blocos. Enquanto o bloco europeu pode se beneficiar e produzir através de sua indústria consolidada, se utilizando dos bens que importa, o Mercosul se encarrega em exportar aquilo que possui de menor valor agregado, sem estímulos para desenvolver outros setores ou para buscar qualquer competitividade, servindo mais como uma “fazenda produtiva” para a Europa.
Benefícios Diretos
Para o Mercosul, o acordo representa acesso a um mercado de aproximadamente 450 milhões de consumidores e a uma economia que, somada à dos países do bloco, alcança cerca de 780 milhões de pessoas e mais de US$ 22 trilhões em PIB. A eliminação ou redução de tarifas poderá ampliar as exportações sul-americanas, especialmente em setores como agricultura, mineração e alimentos processados. Para o Brasil, a União Europeia já representa um fluxo comercial próximo de US$ 100 bilhões anuais, demonstrando o potencial de expansão dessa relação. O acordo também pode atrair investimentos europeus, estimular a transferência de tecnologia e diversificar os parceiros comerciais do Mercosul. Além disso, a redução de tarifas poderá gerar ganhos de competitividade para empresas do bloco e ampliar sua inserção nas cadeias globais de valor.
O perigo iminente
O Acordo UE-MERCOSUL é, inegavelmente, um marco histórico, mas sua celebração deve ser cautelosa. O problema não está no comércio com a Europa em si. O comércio internacional pode gerar investimentos, transferência de tecnologia, empregos e desenvolvimento. A questão fundamental é saber se os países do Mercosul serão capazes de utilizar o acesso ampliado ao mercado europeu como instrumento de transformação produtiva ou se simplesmente ampliarão sua capacidade de exportar recursos e produtos de baixo valor agregado, caindo na armadilha da dependência. Já para a França, o desafio é equilibrar a abertura comercial e os benefícios para sua indústria com a defesa de sua soberania alimentar e ambiental.
A implementação do acordo ocorre, portanto, em um momento decisivo. Mais importante do que simplesmente celebrar ou rejeitar o livre comércio é reconhecer as assimetrias existentes entre os dois blocos. Para que o acordo seja verdadeiramente equilibrado, a abertura comercial precisará ser acompanhada por políticas capazes de fortalecer a indústria, a inovação e a capacidade tecnológica do Mercosul. Caso contrário, um acordo negociado durante 25 anos poderá acabar oferecendo uma nova roupagem às antigas relações de dependência econômica entre o centro e a periferia do sistema internacional.
Bibliografia
CNN Brasil, Von der Leyen defende reformas na UE e vê acordo com EUA como positivo. 2025.
Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/von-der-leyen-defende-reformas-na-ue-e-ve-acordo-com-eua-como-positivo/
RFI, Nunca aceitaremos’: Acordo UE-Mercosul volta à pauta e acirra tensão entre agricultores e governo francês, 2025.
Disponível em: https://www.rfi.fr/br/fran%C3%A7a/20250903-nunca-aceitaremos-acordo-ue-mercosul-volta-%C3%A0-pauta-e-acirra-tens%C3%A3o-entre-agricultores-e-governo-franc%C3%AAs
Poder360. Agricultores fazem protesto em Paris contra acordo UE-Mercosul, 2025.
Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-internacional/agricultores-fazem-protesto-em-paris-contra-acordo-ue-mercosul/
Comex Stat, 2026.
Disponível em: https://comexstat.mdic.gov.br/pt/geral/156356
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