Resiliência climática/Cidades resilientes/Sustentabilidade
Por Pedro Medeiros
O calor se tornou insuportável em muitas cidades brasileiras. A resposta parece óbvia: mais árvores, mais sombra, mais verde. Mas basta uma tempestade com ventos mais fortes para o caos se instalar e mostrar que a resiliência climática ainda é um desafio distante. Árvores caem, galhos rompem cabos, bairros inteiros ficam sem energia, sem semáforos, sem água. Surgem então as falsas soluções: cortar árvores ou aceitar apagões recorrentes. O dilema real, porém, é outro: enfrentar o custo e a complexidade de adaptar a infraestrutura urbana ou continuar administrando o improviso travestido de economia.
Superando o curto-circuito urbano através da resiliência climática
Esse impasse cotidiano revela algo mais profundo. As mudanças climáticas deixaram de ser uma previsão distante e passaram a ser uma experiência urbana diária. Chuvas intensas alagam bairros em poucas horas. Encostas cedem. Sistemas de drenagem entram em colapso. Ondas de calor tornam as cidades quase inabitáveis. Ventos extremos derrubam árvores, telhados e fachadas. O caos já não chega como exceção. Ele se repete.
No curto prazo, essas transformações são inevitáveis. Não porque nada possa ser feito, mas porque os efeitos já estão em curso. O erro persistente está em insistir em cidades projetadas para um clima que já não existe.
O abismo entre o planejamento e a necessidade de cidades resilientes
Engenharia e arquitetura não operam no improviso. Projetos urbanos são concebidos a partir de padrões técnicos que definem cargas de vento, volumes de chuva, variações térmicas e níveis aceitáveis de risco. Esses parâmetros se baseiam em dados históricos, em condições consideradas normais. O problema é que esse “normal” perdeu validade.
No Brasil, a situação é ainda mais delicada. Em muitos casos, esses padrões já eram flexibilizados, pouco fiscalizados ou simplesmente ignorados. Agora, mesmo quando aplicados, partem de premissas defasadas. Ventos mais fortes do que o previsto, chuvas concentradas em volumes inéditos e calor extremo afetam materiais, estruturas e sistemas urbanos inteiros. Não se trata de falhas pontuais, mas de modelos antigos enfrentando um mundo novo.
A urgência de atualizar os critérios técnicos
A revisão urgente dos critérios técnicos que orientam o planejamento urbano não é um detalhe burocrático. Trata-se de uma questão de segurança pública. Cada norma que permanece desatualizada carrega uma escolha implícita: aceitar riscos que quase sempre recaem sobre os mesmos territórios e corpos, moradores de áreas vulneráveis, encostas, várzeas e periferias mal planejadas.
Enquanto isso, o debate público permanece concentrado em soluções de longo prazo: metas para 2030, 2040, 2050. Esses compromissos são importantes, mas insuficientes. As ações corretivas imediatas, como adaptação urbana, revisão dos padrões construtivos, requalificação de áreas de risco e investimento em infraestrutura resiliente, seguem sendo adiadas.
O clima mudou. O curto-circuito nas cidades brasileiras não é apenas elétrico. É estrutural. É político. É decisório.
Sobre o autor: Pedro de Medeiros é filósofo formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, engenheiro mecânico pela PUC e pós-graduado em Gestão de Pessoas, consultor de multinacionais, palestrante e escritor.
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