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A Amazônia está pegando fogo. Quem vai lutar pela vida dos amazônidas?

Por Alexey Ribeiro – Presidente da CUFA Amazonas

A Amazônia está pegando fogo. Enquanto os olhos do mundo se voltam, com razão, para a preservação da floresta, milhares de amazônidas enfrentam diariamente as consequências das queimadas, da desigualdade social, da falta de políticas públicas e da invisibilidade histórica que atinge moradores de favelas, comunidades periféricas e cidades ribeirinhas do Amazonas.

Diante desse cenário, uma pergunta precisa ecoar com força: quem vai falar por nós?

Quem vai lutar pela vida humana daqueles que vivem nesta região? Quem vai defender as famílias que respiram a fumaça, perdem seus meios de subsistência, enfrentam dificuldades de acesso à saúde e à educação e, muitas vezes, sequer têm suas vozes ouvidas nos grandes debates nacionais e internacionais sobre o futuro da Amazônia?

Não podemos aceitar que a Amazônia seja reconhecida apenas por suas árvores, seus rios, sua biodiversidade e seu potencial econômico, enquanto as pessoas que dão vida a esse território permanecem à margem das prioridades.

Quando falamos em bio, falamos de vida. Falamos de biodiversidade, biotecnologia, bioeconomia e bioconhecimento. Mas precisamos ampliar essa discussão e fazer uma pergunta fundamental: onde está a bio dos povos amazônidas? Onde está o compromisso com a vida das pessoas que vivem, trabalham, produzem, inovam e resistem neste território?

Não existe defesa completa da Amazônia sem a defesa de sua gente.

Como presidente da Central Única das Favelas do Amazonas (CUFA AM), tenho defendido que os moradores das favelas, das periferias e das comunidades ribeirinhas precisam ocupar o centro das discussões sobre o desenvolvimento da região. Essas populações não podem ser tratadas apenas como beneficiárias de programas sociais ou como personagens secundários de uma narrativa construída por quem, muitas vezes, nem conhece a realidade de quem vive aqui.

Somos parte da solução. Somos trabalhadores, empreendedores, artistas, pesquisadores, lideranças comunitárias, guardiões de saberes tradicionais e protagonistas de iniciativas que podem transformar a realidade da Amazônia.

A população amazônida conhece os rios, a floresta, os ciclos da natureza e os desafios de viver em um território de dimensões continentais. Nas comunidades, existem conhecimentos que atravessam gerações, soluções criadas a partir da necessidade e uma capacidade extraordinária de resistência. Ignorar essas pessoas é desperdiçar um dos maiores patrimônios da região: sua inteligência humana, cultural e social.

Por isso, precisamos questionar um modelo de debate que dá visibilidade à vegetação, mas nem sempre demonstra a mesma urgência diante das dificuldades enfrentadas pelas populações que vivem sob essa floresta. A preservação ambiental é indispensável, mas precisa caminhar lado a lado com políticas públicas, oportunidades econômicas, segurança alimentar, saúde, educação, moradia digna e respeito às identidades culturais.

Salvar a floresta também significa salvar as vidas que dependem dela e que fazem dela seu lar.

Não se trata de escolher entre as árvores e as pessoas. Essa é uma falsa oposição. Trata-se de compreender que a floresta e seus habitantes fazem parte de um mesmo ecossistema, no qual a dignidade humana, o equilíbrio ambiental e o desenvolvimento sustentável precisam caminhar juntos.

Quando uma comunidade ribeirinha perde suas condições de sobrevivência, quando uma família periférica é esquecida pelas políticas públicas ou quando uma população respira a fumaça das queimadas sem receber a assistência necessária, estamos diante de uma crise que não pode ser medida apenas pela quantidade de hectares destruídos. Estamos falando de vidas, histórias, sonhos e futuros comprometidos.

É preciso que governos, empresas, instituições de pesquisa, organizações sociais e organismos internacionais reconheçam que a Amazônia não pode ser pensada sem a participação efetiva de quem vive nela. Precisamos de investimentos que cheguem às comunidades, de oportunidades para os empreendedores locais, de valorização dos saberes tradicionais e de mecanismos que permitam aos próprios amazônidas participar das decisões sobre o território.

A CUFA Amazonas acredita na potência das favelas e das periferias como espaços de criatividade, inovação, cultura e transformação social. Acredita também que as comunidades ribeirinhas precisam ser ouvidas e reconhecidas como parte essencial de qualquer estratégia séria para o futuro da região.

Não queremos apenas ser lembrados quando a Amazônia estiver em chamas. Queremos ser ouvidos antes que a tragédia aconteça. Queremos participar das decisões, construir soluções e ter acesso às oportunidades que permitam às nossas famílias viver com dignidade.

A Amazônia precisa de proteção ambiental, mas também precisa de justiça social. Precisa de ciência, tecnologia e inovação, mas também precisa reconhecer o conhecimento de quem vive neste território. Precisa de investimentos, mas que eles sejam capazes de transformar a vida das pessoas, e não apenas gerar resultados econômicos distantes da realidade das comunidades.

Quem vai falar por nós? Quem vai lutar pela vida dos amazônidas?

Essa não é uma pergunta dirigida apenas aos governos ou às instituições internacionais. É uma convocação a toda a sociedade para que compreenda a dimensão humana da crise amazônica.

Defender a Amazônia é defender seus povos. Preservar a floresta é garantir que as próximas gerações possam viver nela com dignidade. E construir uma nova economia para a região exige colocar as pessoas no centro das decisões.

Porque, quando falamos de bio, falamos de vida. E a vida humana que habita a Amazônia precisa estar no centro dessa conversa.

Salvar e olhar para o povo é também olhar para a floresta. Defender os amazônidas é defender a Amazônia.

Essa é a luta que precisamos fortalecer: uma Amazônia viva, preservada, justa e inclusiva, onde a floresta tenha futuro e seus povos tenham voz, oportunidades e dignidade.

Sobre Alexey Ribeiro

Empresário, líder comunitário e presidente da CUFA Amazonas. Com atuação voltada ao desenvolvimento social, econômico e cultural das periferias, tem se destacado pela implementação de iniciativas que promovem inclusão, geração de oportunidades e fortalecimento do protagonismo comunitário em Manaus e em municípios do interior do estado.

Natural da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, Alexey Ribeiro traz em sua trajetória a vivência das realidades enfrentadas pelas populações periféricas, experiência que contribuiu para consolidar sua atuação em projetos de impacto social e desenvolvimento humano. Desde 2010 residindo no Amazonas, construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com a transformação social e pela valorização do potencial existente nas comunidades.

Ex-fuzileiro naval e graduado em Marketing, alia disciplina, visão estratégica e capacidade de articulação institucional à condução de ações sociais e empreendedoras. Pai de Maria Júlia, também carrega na vida pessoal os valores de responsabilidade, cuidado e construção de legado, princípios que refletem diretamente em sua atuação comunitária e institucional.

Alexey Ribeiro, Presidente da CUFA Amazonas, Central Única das Favelas – CUFA AM/Foto: Divulgação

À frente da CUFA Amazonas, lidera projetos voltados à cidadania, educação, empreendedorismo, cultura, esporte e assistência social, beneficiando milhares de famílias e ampliando o acesso a oportunidades em áreas de vulnerabilidade social.

Sob sua liderança, a instituição tem fortalecido parcerias com setores públicos e privados, ampliando a visibilidade das pautas relacionadas às favelas amazonenses e promovendo iniciativas voltadas ao desenvolvimento sustentável das comunidades. Seu trabalho também contribui para evidenciar histórias de superação, incentivar novos talentos e consolidar políticas de inclusão social por meio da atuação comunitária.

Reconhecido por sua atuação em defesa das periferias, Alexey Ribeiro mantém uma trajetória pautada pelo compromisso social, pela valorização da dignidade humana e pela construção de caminhos que promovam transformação, esperança e desenvolvimento para as comunidades do Amazonas. Atualmente, integra o comitê técnico da Jornada de Confluências Amazônia.


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